quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O. Lyon 2 - 0 SL Benfica - O "estofo" treina-se? Ou será a estratégia?

No final do jogo as opiniões dividem-se. De um lado os que defendem que faltou estofo à equipa, do outro os que defendem que foi a estratégia que falhou. Para mim é um pouco dos dois.

1. O "estofo".
Ao defender a falta de estofo como causa da derrota estaremos obviamente a lembrar-nos da perda de bola de C.Martins e da expulsão de Gaitan, mas também dos inúmeros passes falhados, ou da falta de capacidade para chegar à baliza adversária.Sim, faltou estofo,porque os passes falhados nas saídas para o ataque não são normais na equipa, e porque não houve capacidade para pausar o jogo, que naquela velocidade só podia ser favorável ao Lyon.

2. A estratégia.
Há no entanto que referir que durante grande parte da primeira parte o Benfica equilibrou, mas lá está, faltou o último terço,onde mais uma vez se demonstrou o problema evidente deste Benfica: não tem que dê velocidade e que estique o jogo, ou melhor até tem, mas jogou a defesa - esquerdo. Há aqui um ponto essencial, e que tem a ver com as perdas de bola verificadas, é que sem um médio/extremo rápido que dê profundidade e estique o jogo, as transições rápidas são dificeis, por isso detecta-se rapidamente um erro estratégico neste Benfica, que continua a tentar sair rápido quando já não tem um ponto de referência para essas saídas. Este Benfica, sem Coentrão a ala, tem que ser uma equipa com jogo mais pausado, tentando depois ganhar a segunda bola no campo do adversário. A transição rápida a partir da defesa, ou o contra-ataque, tem que ser feito ou com os laterais ou com os avançados, em jogo mais directo, porque ao procurar Aimar e Saviola, que jogam mais no centro, a equipa arrisca-se a perder a bola em zonas perigosas, ainda mais quando estes jogadores não têm depois a linha de passe que habitualmente lhes é dada pelo extremo, e que, devido também á ausência desse extremo, têm muitos médios por perto.
Para além deste pecado estratégico original, há também o segundo erro estratégico, que tem a ver com a forma como o Benfica entrou na segunda parte. Com menos um jogador e a perder somente por um golo pensei que JJ iria preocupar-se ao intervalo em equilibrar a equipa, o que podia passar por várias hipóteses mas a que me pareceria correcta seria sempre a de manter 4 jogadores no meio-campo, retirando um avançado, tentando depois mais qualquer coisa nos 15/20 minutos finais. Aqui a teimosia do treinador pareceu-me fatal. A ideia de Jesus seria a de que os dois avançados iriam segurar 3 ou 4 defesas do Lyon, equilibrando as contas no resto do campo, mas o que aconteceu foi que com esta opção o Lyon optou por subir mais os laterais, obrigando a deslocações no meio campo do Benfica que foram abrindo espaços por todo o lado.

3. Mix
Parece-me óbvio, a mistura da falta de estofo de Gaitan e da desconcentração de Martins, com a estratégia errada imposta por JJ foram as causas da derrota. Tal como no jogo em Liverpool da época passada, o treinador do Benfica não tem conseguido incutir nos jogadores nem na sua estratégia a ideia de que há jogos mais difíceis e que exigem outro tipo de concentração. Porque uma coisa é querer jogar bonito, outra coisa é não ter a consciência das dificuldades de jogos desta natureza,porque ao não haver essa consciência não há também uma estratégia adequada, e ao mesmo tempo não se consegue passar aos jogadores o nível de exigência destes jogos, em que um pormenor decide o resultado.Sim, tudo isto é treino e treina-se.

4. Coentrão,Luisão e Roberto.
No meio do naufrágio safaram-se estes.
Coentrão porque é classe pura. Dá gosto vê-lo jogar, e é tão importante neste Benfica que se tivesse jogado a médio-ala grande parte do que escrevi até aqui não teria razão de ser. O dilema de Janeiro vai ser este: compramos um defesa - esquerdo ou um médio-ala?È pena não ter um irmão gémeo, o melhor que tem é um meio-irmão, que defendia menos e agora joga no Real Madrid...pois é.
Luisão continua a fazer uma boa época, seguro, e a cobrir algumas falhas do D. Luiz, para além disso tem algo que faltou hoje a alguns jogadores: jogar simples sem medo do pontapé para o ar. Não é Carlos Martins?
Roberto porque vai-me convencendo que se calhar é mesmo bom. Reflexos fantásticos e cada vez se vai tornando maior na baliza, se é que me entendem. Continua a defender muito para a frente e estão por comprovar as saídas da baliza, mas lá que tem pinta tem.

5. Jorge Jesus
Não há volta a dar. As equipas são a imagem do treinador, e talvez a falta de estofo da equipa também seja originada pela falta de estofo do treinador, ou falta de experiência. Confiança não significa fanfarronice, e querer ganhar não significa querer estar 90 minutos ao ataque e a jogar bonito.Olho para o Benfica e vejo uma equipa bem treinada, com bons processos defensivos e ofensivos, mérito de JJ obviamente, mas falta racionalidade e realismo no seu jogo e isso é demérito do treinador. Quero acreditar que tal como a equipa e o clube, também o treinador irá percorrer esse caminho de realismo, sem perder a essência do bom futebol que os caracterizam.

6. Equecer este que no fim de semana há mais.

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